BOAS VINDAS

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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Comprar revista




COMPRAR REVISTA




Parou, hesitante; em frente à banca de jornais. Examinou as capas das revistas, uma por uma. Tirou do bolso o recorte, consultou-o. Não, não estava incluída na relação de títulos, levantada por ordem alfabética. Mas quem sabe havia relação suplementar, feita na véspera? Na dúvida, achou conveniente estudar a cara do jornaleiro. Era a mesma de sempre. Mas a talvez ocultasse alguma coisa, sob a aparência habitual. O jornaleiro olhou para ele, sem transmitir informação especial no olhar, além do reconhecimento do freguês.
Peço? Perguntou a si mesmo. Ou é melhor sondar a barra? 
─ Como vão indo as coisas?
─ Vão indo, meio paradas.
─ Não tem vendido muita revista?
O jornaleiro fitou-o, sério:
─ Nem todo o dia é dia de vender muita.
─ Eu sei, mais tem revista e revista ?
─ Lá isso é.
─ A lista está completa ?
─ Que lista?
─ Das revistas proibidas.
─ Ah, sim, o listão. O senhor queria que não estivesse completo?
─ Eu? Perguntei, apenas. Gosto de saber das coisas com certeza. Às vezes a gente pede uma revista que não tem mais, que não pode mais ter à venda, e...
─ Por isso que perguntei. Não quero grilo, entende?
─ Entendi.
─ Nem para o senhor nem para mim, é lógico.
─ Tá legal.
─ Além do mais, gosto de cumprir a lei. O senhor também não gosta?
─ Muito.
─ Sou assim. Sempre gostei. Cumpro a lei, cumpro o decreto, cumpro o regulamento, cumpro a portaria, cumpro tudo.
─ Eu também, e daí?
─ Daí, não estou vendo a revista que eu queria, e fico sem saber se posso querer, se a lei me autoriza a querer minha revista.
─ Bem, se não está no listão, eu tenho.
─ E por que não expõe?
─ Não posso expor tudo ao mesmo tempo. Tenho que mostrar as revistas esportivas, as de palavras cruzadas, as de cozinha, os fascículos de bichos e viagens, as leis de impacto... Como é que sobra lugar?
─ Compreendo. Mas não achando a revista exposta, receei que ela não pudesse mais circular.
─ Por quê? Tem muita mulher nua, colorida, página dupla?
─ Não.
─ Marmanjo nu, como está na moda?
─ Também não. De vez em quando publica umas fotos pequeninas, de cenas de filmes ou peças de teatro, com barrigas e pernas de fora. Me interessa é as notícias, é como vai o mundo, e o que se comenta sobre ele. Quero uma revista de ao atualidades.
─ Por que não disse logo?
─ Porque tem atualidade e atualidade, então não sei? Pode me vender o Time, ou também ele já foi proibido? Veja bem, não desejo comprometê-lo. E muito menos a mim, é evidente. Mas só quero o Time se o senhor garantir que posso levar ele para casa sem infringir a lei.



(Carlos Drummond de Andrade)


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