BOAS VINDAS

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sábado, 24 de setembro de 2011

Rosa

                  
                     Rosa
 















Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa
Do amor!
Por Deus esculturada
E formada com ardor...

Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida
Pelo beija-flor...
 
Se Deus
Me fora tão clemente
Aqui neste ambiente
De luz, formada numa tela
Deslumbrante e bela...
 
Teu coração
Junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado
Sobre a rosa e a cruz
Do arfante peito teu...

Tu és a forma ideal
Estátua magistral
Oh! alma perenal
Do meu primeiro amor
Sublime amor...
 
Tu és de Deus
A soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração
Sepultas um amor...
 
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes
Cheios de sabor
Em vozes tão dolentes
Como um sonho em flor...
 
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim
Que tem de belo
Em todo resplendor
Da santa natureza...
 
Perdão!
Se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh, flor!
Meu peito não resiste...


Oh! meu Deus
O quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar
Em esperar
Em conduzir-te
Um dia ao pé do altar...
 
Jurar aos pés do Onipotente
Em preces comoventes
De dor, e receber a unção
Da tua gratidão...
 
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te
Até meu padecer
De todo fenecer...
(Pixinguinha)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sufoco


S u f o c o

Solitário e mudo
Alta madrugada
Frio o corpo.
Cabeça ardendo
Peito sufocado
Coração apertado...
A vida passando
Os anos passando
O amor finando.
A ilusão minguando
A descrença chegando
O vazio dominando.
O dia não vem
A noite insiste
A morte espreita.
Decisão inexiste
O tempo pára!...
Não tem saída.
O céu escurece
O momento exige
Ninguém decide.
 (Pimentel)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Psicologia de um vencido


PSICOLOGIA DE UM VENCIDO


Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

(Augusto dos Anjos)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Uma palavra


        UMA PALAVRA


 
















Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d’água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras, que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer leitura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra

(Chico Buarque de Holanda)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vai viver a sua vida


Vai viver a sua vida


Alô quem é?
Com quem você quer falar?
Não tem ninguém aqui com esse nome
Você se enganou, discou errado o telefone
Já te falei, não me procure mais.

Alô quem é?
Não acredito que é você de novo
Tentando insistir
Já é tarde e não é hora de ligar pra mim.

Porque é que você não me deixa em paz?
Quer saber, se você quer me ouvir
Então eu vou falar:

Quantas vezes te liguei pedindo pra voltar
E você nem se importava com meu coração
Quer saber, você não sabe a metade
Do que eu passei.
O que fez comigo eu não desejo pra ninguém
E só agora eu consegui me levantar do chão.

Vá viver a sua vida
Vá seguir o seu caminho
Vá passar o que passei, quando
Eu estava sozinho...
Vá viver a sua vida e entender
O que é o amor
Vá sofrer o que sofri
Vá chorar o que chorei, pra aprender a dar valor.

(Música de Eduardo Costa)