BOAS VINDAS

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Urubus e sabiás

Rubem Alves


Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranquilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa, e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.
— Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...
— Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.
E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá.


O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar —

O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 81.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Brasileiro: Cidadão?

Brasileiro: Cidadão?


A igualdade na sociedade brasileira tem sido uma verdadeira obsessão para os atuais cientistas da antropologia social brasileira.
A igualdade, como valor político ou como ideal social nos leva à discussão não só da democracia como estilo de vida ou cultura, mas, sobretudo da cultura da democracia.
Quem é o cidadão em nosso país? Confesso que esta indagação me traz um conjunto de imagens perturbadoras.
Ao pensar em cidadão e em cidadania não me vem à mente a imagem de uma pessoa que segue tranquilamente as regras da lei. Penso em uma letra antiga de uma música conhecida que fala do Zé da Silva, que não sabe a cor do dinheiro e do conforto. Penso também no papel social de João Ninguém que sou obrigado a desempenhar quando me vejo obrigado a resolver um problema num banco, na telefônica ou em qualquer outro órgão público.
De fato, de tanto ser e ver esse Zé da Silva, posso compor seu rosto e seu jeito. Ele provavelmente é de cor, magro, mal nutrido, veste-se mal, leva insegurança na voz: fala errado, fala de modo balbuciante, revelando falta de informação e leitura. Jamais reclama. Quando o faz é através de um quebra-quebra, reagindo exageradamente, de modo violento.
Vejo o rosto sofrido de milhões que vagam pelas filas de triagem dos hospitais públicos, querendo receber uma palavra de reconhecimento social e político. Uma palavra que diga que eles são parte de alguma coisa e que sua existência (sem o carro oficial), sem dinheiro no banco, sem diploma universitário) tem algum valor .

Roberto da Matta (1992)

com cortes e adaptações.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Essa tal felicidade


Todos queremos ser felizes. Mesmo sem saber exatamente o que é essa felicidade, onde ela mora ou como se encontra, traçamos planos, fazemos escolhas, listamos desejos e alimentamos esperanças pela expectativa de alcançá-la. Em seu nome, comemos chocolate, estudamos para a prova, damos festas, casamos ou separamos, compramos carro, dançamos valsa, formamos turmas, entramos na dieta, brigamos, perdoamos, fazemos promessas – nós vivemos.
Às vezes, agimos pensando na felicidade como uma recompensa futura pelo esforço. Noutras, a encaramos como o bilhete dourado na caixa de bombons. Não raro, pensamos que ela é um direito. Ou um dever a ser cumprido – e, assim como em outras obrigações cotidianas, como fazer o jantar, se a gente falha em executar a meta, tendemos a procurar soluções prontas, como lasanha congelada ou antidepressivos.
Por isso é tão difícil definir (e achar) a tal felicidade. Nós a confundimos com o afeto (se encontrarmos o amor, ela virá), com a sorte (com esperança, ela vai chegar), com o alívio (se resolvermos os problemas, como o excesso de peso, então a teremos). Nós a confundimos com a conquista: se realizarmos tudo o que queremos e se espera de nós... seremos felizes, não?
Não. São pensamentos como esses que transformam a felicidade na cenoura eternamente pendurada à nossa frente – próxima, mas inalcançável. Estabelecer tantas condições para ser feliz faz a gente superestimar o poder que coisas nem tão importantes assim têm sobre nosso bem. Enganamo-nos com a promessa de que há uma fórmula a seguir e jogamos a responsabilidade pela satisfação em lugares fora de nós (e além do nosso controle), como ganhar aumento ou ser correspondido na paixão. E ao invés de responder aos nossos anseios, essas ilusões podem criar um vazio ainda maior.
Podemos não saber explicar o que é felicidade – até porque é uma experiência única para cada pessoa. Mas a ciência, a filosofia e as histórias de quem se assume feliz dão pistas do que ela não é. (...)
Comparando centenas de pesquisas, [o psicólogo americano] Martin Seligman e outros pesquisadores perceberam: a felicidade está naquilo que construímos de mais profundo – nossas experiências sociais. A vida bem vivida, sugere o psicólogo, é aquela que se equilibra sobre três pilares: os relacionamentos que mantemos, o engajamento que colocamos nas coisas e o sentido que damos à nossa existência. É isso, afinal, que as pessoas felizes têm em comum.
(...)
A verdade de cada um

Hoje, Claudia Dias Batista de Souza, 63 anos, não quer levar nada da vida. Mas houve um tempo em que quis o mesmo que todo mundo. “Achava que ser feliz era ter um bom marido, um bom emprego, um bom carro, sucesso”, conta. Claudia cresceu em um bairro nobre de São Paulo, casou aos 14 anos, teve a única filha aos 17, se separou, estudou Direito, virou jornalista. Aos 24 anos, mudou para a Inglaterra. De lá, foi para os Estados Unidos, onde conheceu o segundo marido. E aos 36 anos descobriu que não queria mais nada daquilo. Claudia virou budista. Hoje é conhecida como monja Coen – palavra japonesa que significa “só e completa”.
Foi porque estava em busca de algo que a ajudasse a se conhecer melhor que Claudia procurou o budismo. (...)
E descobriu onde estava sua felicidade. “Eu era bravinha, exigente com os outros e comigo. No budismo, aprendi que o caminho da iluminação é conhecer a si mesmo. Isso me trouxe plenitude”, conta. “Vi que sou um ser integrado ao mundo e, para ficar bem, preciso fazer o bem. A recompensa é incrível”.

WEINGRILL, Nina; DE LUCCA, Roberta; FARIA, Roberta. Sorria. 09 jan. 2010


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A abolição do gerúndio



A abolição do gerúndio

(José Augusto Carvalho)


José Roberto Arruda, governador de Brasília, em seu artigo “Demiti o gerúndio”, argumenta que demitir o gerúndio era uma necessidade, porque os funcionários públicos recorriam a ele "para justificar a própria ineficiência". Para ele, ditos como "estamos preparando" ou "estamos providenciando" (exemplos citados por ele como condenáveis, mas exemplos legítimos do uso do gerúndio que nada têm a ver com o gerundismo) caracterizariam "um crime contra a população" por representar uma "progressão indefinida".
Além do raciocínio indutivo que faz tábula rasa de todos os funcionários, considerados proteladores e ineficientes, José Roberto Arruda condena o gerúndio porque, para ele, o abuso do gerúndio é que seria responsável pelo emperramento da máquina administrativa. O gerúndio é que seria responsável pela burocracia, "enquanto doentes padecem nas filas dos hospitais". Vale dizer: eliminando-se o gerúndio, os doentes terão atendimento, os funcionários exercerão suas funções
com zelo, dedicação e eficiência.
"Abolir" o gerúndio é cercear a liberdade de expressão do falante. Não é o gerúndio que provoca o adiamento de um processo, a procrastinação de um serviço público ou a falta de atendimento médico. Na ótica simplista do Sr. Arruda, eliminando-se o gerúndio, eliminam-se também a preguiça e a incompetência dos funcionários e burocratas da sua administração. Se a mesa está quebrada, basta eliminar a palavra "quebrado" do dicionário para que a mesa fique consertada; para que um motor de carro funcione sempre, basta eliminar a palavra "pane" dos dicionários. Para que um funcionário trabalhe, basta eliminar o gerúndio do seu vocabulário.
O Sr. José Roberto Arruda descobriu a cura de todos os males! Oxalá falantes ilustres tenham o bom senso de entender que a nossa língua portuguesa não tem um único dono. Nossa língua portuguesa é a língua de todos nós, mesmo que alguma autoridade não concorde com o nosso jeito de usá-la.



O gerúndio é só o pretexto I

(Luiz Costa Pereira Jr.)

Ele chegou furtivo, espalhou-se feito gripe e virou uma compulsão nacional. Em menos de uma década, o gerundismo cavou pelas bordas seu lugar sob os holofotes do país. É o Paulo Coelho da linguagem cotidiana. Nas filas de banco, em reuniões de empresas, ao telefone, nas conversas formais, em e-mails e até nas salas de aula, há sempre alguém que "vai estar passando" o nosso recado, "vai estar analisando" nosso pedido ou "vai poder estar procurando" a chave do carro. É fenômeno democrático, sem distinção de classe, profissão, sexo ou idade. O gerundismo já foi alvo de tantos e tão calorosos debates, que mesmo a polêmica em torno dele pode estar virando uma espécie de esporte de horas vagas, quase uma comichão a que poucos parecem indiferentes. Embora não haja explicação única para a origem do fenômeno, sua popularidade chama a atenção não só de especialistas da língua, mas de empresários e ouvidos sensíveis a saraivadas repetidas do mesmo vício.
O gerundismo pode não passar de moda e, tal como veio, desmanchar-se no ar, como outros vícios de ocasião. O movimento recente contrário à sua aceitação pode indicar que o fenômeno está longe de generalizar-se. Mas, se ele corresponder mesmo a uma necessidade nem sempre consciente da comunidade, erradicá-lo vai demorar muito mais do que se imagina. Ainda é cedo para garantir, com firmeza, o futuro do combate ao gerúndio vicioso. Se tal esforço "vai estar surtindo efeito", só o tempo "vai poder estar dizendo".



O Gerúndio é só o pretexto II

(Luiz Costa Pereira Jr.)

Ao adotar o gerúndio numa construção que não o pedia, a pessoa finge indicar uma ação futura com precisão, quando na verdade não o faz. Para a professora Maria Helena de Moura Neves, da UNESP e do Mackenzie, autora da Gramática de Usos do Português, o gerundismo faz
a informação pontual (em que o foco está na ação) ser transformada numa situação em curso (durativa). O aspecto pontual é aquele em que um fenômeno é flagrado independentemente da passagem de tempo – o verbo se refere só à ação. São pontuais, por exemplo, expressões como
"vou fazer" ou o futuro do presente, "farei".
Porque os mecanismos linguísticos são acionados pela intenção, diz Maria Helena, é possível obter um efeito pragmático na locução do gerúndio de atenuar o compromisso com a palavra dada.
Quando digo "vou passar seu recado", a referência é a ação em si. Não me atenho à sua duração. Com isso, amarro um compromisso. A ação é indicada ali, pura e simplesmente. Garanto que ela se cumprirá. Ao usar o gerúndio, deixo de me referir puramente à ação e incorpora-se o aspecto verbal durativo. A ênfase passa a ser outra. Você comunica que até encontrará tempo para fazer a ação, mas seu foco não está mais nela.



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Testemunho



Testemunho



VEJO UMA ARANHA caçar uma mariposa — eis o problema. Mato a aranha? Deixo a aranha viva e salvo a mariposa? Deixo a aranha devorar a mariposa?
O fato se passa numa terça-feira de carnaval, mas não faço alegoria. Não me refiro veladamente a um pierrô malvado que sequestra uma indefesa colombina... É carnaval, mas estou sentado à minha mesa de trabalho e é a trinta centímetros de mim, sob a borda da janela, que se processa esse assassinato.
Detenho-me e observo. A mariposa se agita presa por fios invisíveis, e já da sombra surge a aranha, pequenina, dedilhante. A princípio sou pura curiosidade: a aranha é muito menor que a mariposa, que irá fazer? Aproxima-se, faz uma volta em torno dela, detém-se em certos pontos, move afanosamente as pernas. A mariposa se agita menos, enleada. É quando intervém em mim o sentimento: a aranha vai devorá-la! O seu trabalho agora é sinistro: sobe na mariposa, tece-lhe na cabeça, procura virá-la, muda de posição — upa! — vira-a. Parece um homem trabalhando,
amarrando sua presa.
Ouço distante o rumor de um bloco que passa lá na rua dos fundos. O Rio inteiro está mergulhado na folia, e é como se a aranha aproveitasse essa distração para cometer o seu crime silencioso. Por acaso, um dos habitantes da cidade — eu — ficou em casa, e com isso a aranha não contava. Sou a testemunha. Mais que isso: posso evitar o crime. Bastaria um gesto meu e a mariposa estaria salva. Devo fazê-lo?
Enquanto isso, a aranha continua sua faina sinistra. Agora arrasta a mariposa, já imobilizada, para aquele canto da sombra, sob o parapeito, donde saíra momentos antes. Percebo na aranha uma inteligência quase humana. Pobre mariposa, e o carnaval troando lá fora! Vou salvá-la. Ergo a mão, mas vacilo como uma divindade irresoluta. Um segundo, minha mão onipotente detém-se erguida no ar. Enfim, para que servem as mariposas?
— Para que as aranhas as comam — responde-me a aranha sem interromper seu serviço.
— Sim, mas para que servem as aranhas?
— Para comer as mariposas.
— Ora bolas, mas para que servem as aranhas e as mariposas?
A aranha já não se dignou responder. A essa altura sumira com a mariposa sob o parapeito da janela. Alguém, providencialmente, bate à porta do escritório e me chama à realidade dos homens.


Ferreira Gullar. A estranha vida banal.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p. 77-8.