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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Urubus e sabiás

Rubem Alves


Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranquilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa, e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.
— Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...
— Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.
E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá.


O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar —

O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 81.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

A lagartixa


A lagartixa



A professora está dando uma aula de português, no terceiro ano primário:
“O diminutivo se forma com o acréscimo de um sufixo, com inho, zinho, zito et. Por exemplo: rapaz, rapazito ou rapazinho ou rapazelho ou rapagote... pedra, pedrinha ou pedrita... casa, casinha ou casia ou casebre... mala, malinha, malazinha, maleta... Há, porém, palavras que têm posto menor: Exemplos: Homem - menino; boi - bezerro; galo – pinto; pombo – borracho; árvore – arbusto; rio – regato; vara – vírgula; cabeça – capítulo; telha – tecla; roda – rótula, rolha... Entenderam bem? Quem é capaz de dar outro exemplo de diminutivo formado sem sufixo?
– Eu! – disse João – Faca – canivete...
– Muito bem! Quem mais sabe dar algum exemplo?
– Eu! – disse Pedro – Rato – camundongo...
– Muito bem! Realmente, camundongo ou catita, é um rato pequeno.
– E mais ninguém sabe demonstrar, com algum exemplo, que entendeu bem?
– Eu sei! – disse Zelito, o menor da aula, um petiz de oito anos apenas.
– Diga, Zelito!
– Jacaré...
– E qual o diminutivo?
– Lagartixa.
(Gargalhada geral)



Dom Antônio de Almeida Lustosa - do livro No mundo infantil