BOAS VINDAS

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domingo, 13 de maio de 2012

Tributo a Angie

TRIBUTO A "ANGIE"
(crônica)

"Angie", não esquecerei de ti; aliás, não esqueceremos de ti. Lembro o dia em que te trouxe do Largo de São Francisco, centro de São Paulo. Trouxe-te numa caixa fechada, não muito aconchegante. E como reclamaste o desassossego! Era uma tortura os solavancos do ônibus.
Confesso que senti vergonha dos teus grunhidos; olhavam-me com espanto e desdém, como se fosse coisa do outro mundo.
Alegrou-nos sobremaneira a tua chegada, e por poucos dias nos encantaste com teus trejeitos e travessuras. Por pouco tempo vieste somar alegrias às já existentes.
É... mas foi por poucos dias...
O fatal destino arrebatou-nos essa alegria que parecia diuturna. Nem mesmo completaste um ano de vida nem mesmo a metade.
Hoje o dia amanheceu sombrio, não só porque fazia frio intenso, mas também porque sofreste dolorosamente toda a noite que passou. E o teu sofrimento sempre nos inquietou. Mas nessa noite sentimos pavor: parecia uma noite interminável.
É verdade que já sofrias há tempo... Lamento muito.
E como sofreste!...
"Angie", sei que já não pertences ao brutal e perigoso mundo dos viventes e jamais desconheci a tua natureza tão diferente da nossa, se bem que disso não fizemos muito caso. Mas falo à tua memória memória viva; que atormenta e que nos causa dissabores.
Não esqueço a tua vivacidade. Pior ainda: não esqueço o teu passamento. Para minha vergonha, desalento, desespero e frustração, morreste em minhas mãos.
Desculpa, "Angie", não te ter podido salvar da morte essa meretriz infernal que vive procurando ser-parceiro. Não imaginas quanto lamento o teu triste fim, e o quanto sofreste.
Ah... quisera ter-te agora, viva, radiante. Quisera que não morresses... A tua morte revela o meu estado de completa indigência, a minha quase-miséria. A tua perda acusa minha total falta de recursos. Não tive recursos para salvar-te da "enfermeira-megera" covarde, traiçoeira! Fui indesculpável no teu socorro.
Ah, "Angie", não me recrimines, não me queiras mal por minha displicência. Meu pior erro foi tirar-te a possibilidade de seres adquirida por dono capaz de criar-te com saúde e responsabilidade.
É... é isso mesmo: fui irresponsável!
Como dói lembrar o teu "sacrifício": a agulha cravada em teu coração inocente e indefeso, o veneno correndo por tuas veias e as tuas lágrimas sim, eram lágrimas de dor e morte escorrendo, as tuas últimas convulsões... e o teu fim.
Não lutaste com a morte estavas debilitada demais , mas o teu olhar derradeiro, para mim, doeu fundo: parecia uma súplica ou um adeus amargurado e incrédulo. E isso ainda dói, quando lembro.
E foste finando em poucos minutos: primeiro o teu cérebro instantaneamente; após, o teu coração em três minutos.
Desculpa, "Angie", desculpa mesmo, mas já não havia mais jeito: a tua situação era irreversível.
Se eu fosse poeta te faria um lindo poema; se pintor, um belo quadro; se escultor, estátua imponente. Bem que merecias um tributo maior que essas linhas mal ordenadas e pálidas.
"Angie", por muito estarás em nossa memória, já que não podes estar fisicamente em nosso convívio.
Não serás substituída.
Serviu-me como lição a tristeza que me persegue e a vergonha que me revolta, por ter-te perdido.
Eras um animal irracional talvez mais racional que muitos humanos , mas forte, querida e estimada na categoria de ser superior a ti.
Ficaram como lição as lágrimas que rolaram e a dor que emana das escarpas do meu coração.
Tchau, "Angie"; até nunca mais...!

São Paulo-SP, 10.05.85

Pimentel

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Tabacaria

                                  Tabacaria

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.


In Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Educação de quarto mundo


Educação de quarto  mundo


“Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso?”
No meio da tragédia do Haiti, que comove até mesmo os calejados repórteres de guerra, levo um choque nacional. Não são horrores como os de lá, mas não deixa de ser um drama moral. O relatório “Educação para todos”, da Unesco, pôs o Brasil na 88ª posição no ranking de desenvolvimento educacional. Estamos atrás dos países mais pobres da América Latina, como o Paraguai, o Equador e a Bolívia. Parece que em alfabetizar somos até bons, mas depois a coisa degringola: a repetência média na América Latina e no Caribe é de pouco mais de 4%. No Brasil, é de quase 19%.
No clima de ufanismo que anda reinando por aqui, talvez seja bom acalmar-se e parar para refletir. Pois, se nossa economia não ficou arruinada, a verdade é que nossas crianças brincam na lama do esgoto, nossas famílias são soterradas em casas cuja segurança ninguém controla, nossos jovens são assassinados nas esquinas, em favelas ou condomínios de luxo somos reféns da bandidagem geral, e os velhos morrem no chão dos corredores dos hospitais públicos. Nossos políticos continuam numa queda de braço para ver quem é o mais impune dos corruptos, a linguagem e a postura das campanhas eleitorais se delineiam nada elegantes, e agora está provado o que a gente já imaginava: somos péssimos em educação.
Pergunta básica: quanto de nosso orçamento nacional vai para educação e cultura? Quanto interesse temos num povo educado, isto é, consciente e informado – não só de seus deveres e direitos, mas dos deveres dos homens públicos e do que poderia facilmente ser muito melhor neste país, que não é só de sabiás e palmeiras, mas de esforço, luta, sofrimento e desilusão?
Precisamos muito de crianças que saibam ler e escrever no fim da 1ª série elementar; jovens que consigam raciocinar e tenham o hábito de ler pelo menos jornal no 2º grau; universitários que possam se expressar falando e escrevendo, em lugar de, às vezes com beneplácito dos professores, copiar trabalhos da internet. Qualidade e liberdade de expressão também são pilares da democracia. Só com empenho dos governos, com exigência e rigor razoáveis das escolas – o que significa respeito ao estudante, à família e ao professor – teremos profissionais de primeira em todas as áreas, de técnicos, pesquisadores, jornalistas e médicos a operários. Por que nos contentarmos com o pior, o medíocre, se podemos ter o melhor e não nos falta o recurso humano para isso? Quando empregarmos em educação uma boa parte dos nossos recursos, com professores valorizados, os alunos vendo que suas ações têm consequências, como a reprovação – palavra que assusta alguns moderníssimos pedagogos, palavra que em algumas escolas nem deve ser usada, quando o que prejudica não é o termo, mas a negligência. Tantos são os jeitos e os recursos favorecendo o aluno preguiçoso que alguns casos chegam a ser bizarros: reprovação, só com muito esforço. Trabalho ou relaxamento têm o mesmo valor e recompensa.
Sou de uma família de professores universitários. Exerci o duro ofício durante dez anos, nos quais me apaixonei por lidar com alunos, mas já questionava o nível de exigência que podia lhes fazer. Isso faz algumas décadas: quando éramos ingênuos, e não antecipávamos ter nosso país entre os piores em educação. Quando os alunos ainda não usavam celular e iPhone na sala de aula, não conversavam como se estivessem no bar nem copiavam seus trabalhos da internet – o que hoje começa a ser considerado normal. Em suma, quando escola e universidade eram lugares de compostura, trabalho e aprendizado. O relaxamento não é geral, mas preocupa quem deseja o melhor para esta terra.
Há gente que acha tudo ótimo como está: os que reclamam é que estão fora da moda ou da realidade. Preparar para as lidas da vida real seria incutir nos jovens uma resignação de usuários do SUS, ou deixar a meninada “aproveitar a vida”: alguém pode me explicar o que seria isso?

Lya Luft

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Perguntas de um trabalhador que lê


Perguntas de um trabalhador que lê 


Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída,
Quem a reconstruiu tanta vezes? Em que casas
Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que
a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo
na lendária Atlântida
Os que se afogavam gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?


Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?


Tantas histórias.
Tantas questões.

(Bertolt Brecht)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sem celular

Sem celular


Dentro de um mês, haverá um telefone celular para cada duas pessoas na Terra. Pelos cálculos, serão 4,3 bilhões de aparelhos para 7 bilhões de pessoas. Parece, mas não é – ainda – o fim dos tempos. Significa que, de cada duas pessoas no planeta, restará uma que não sente ânsias de se comunicar o tempo todo, que não aceita ficar disponível 24 horas por dia e não corre o risco de constranger os artistas deixando seu aparelho tocar no meio da plateia do Teatro Municipal. Essa pessoa ainda valoriza o ato de falar ao telefone, usando-o apenas quando tem algo prazeroso ou inadiável a dizer. E valoriza, sobretudo, o ato de não falar ao telefone.
Mas o dito placar, de alto conteúdo simbólico, só terá a duração de 60 segundos. Como, no mundo, são assinados mil novos contratos de telefonia móvel por minuto, este é o tempo que levará para que os usuários de celular passem à frente dos não usuários e disparem na corrida para empatar com o número total de habitantes.
Quais são os maiores responsáveis pelo galopante aumento na quantidade de celulares? A China, a Índia, a África e, claro, o Brasil. Quanto mais emergente, mais um povo parece precisar de celulares. Os americanos, os japoneses e os europeus, pelo visto, não precisam de tantos ou já têm todos os de que precisam.
Não me entendam mal, sou a favor do celular. Apenas me pergunto o que a turma tanto fala ao telefone. Do tambor ao computador, o ser humano sempre inventou meios para trocar mensagens. Mas, pelas amostras que recolho de ouvido nas ruas, fala-se ao celular apenas porque ele está à mão. Marshall McLuhan acertou na pinta: o meio é a mensagem. Temo que, um dia, exceto por Caetano Veloso e Vera Fischer, eu seja a única pessoa das minhas relações a não ter celular.

(Ruy Castro, Folha de S. Paulo – com adaptação)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A era virtual humilha os homens

A era virtual humilha os homens




Vários homens usam o computador como mecanismo de seduzir mulheres e também serem notados; até já saiu numa reportagem do “Fantástico” que o computador é uma grande arma de sedução.
         Facebook e Orkut são um exemplo nítido disso. Enquanto mulheres recebem cantadas e recados amorosos todas as semanas pela página de recados ou pelo grande número de homens que babam suas fotos (por certa razão óbvia), homens ficam anos e anos sem receberem uma única cantada.
        O desprezo feminino causa um profundo sentimento de frustração nos homens. O homem comum não é notado pelas mulheres e o homem pobre e feio será desprezado eternamente por elas. A solidão na era virtual do homem é muito mais do que na da mulher. Ele tem várias amigas virtuais, mas nenhuma dá importância a ele, é apenas um enfeite na página principal. A mulher consegue tudo isso de forma passiva na era virtual. Se mulheres tiverem milhares de amigos virtuais, muito deles tentarão chamar a atenção dela de alguma forma, chamar para sair e dar uma de “amiguinho” para que consiga sexo casual.
            Isso é um processo natural na era virtual para as mulheres, basta estarem disponíveis e automaticamente os homens irão caçá-las. Elas ficam loucas de tanto assédio que vem em massa da raça masculina, dando a condição a elas de escolherem o macho a dedo.
        Mulheres fazem questão de humilhar os homens com as facilidades sexuais delas; já a vida do homem na era virtual é um imenso vazio: vive anos em redes sociais, como Facebook, e nenhuma mulher se interessa por ele, e ainda esse mesmo cara será desprezado por milhões de mulheres que ele busca caçar.
         O homem é descartável na era virtual, enquanto mulheres têm opções de sobra. Quanto mais limitado física e financeiramente for o homem, mais será descartado na era virtual, mais se sentirá cada vez mais desprezível.
            O homem não tem o mesmo recurso de poder de atração que as mulheres têm; muitos tentam selecionar as melhores fotos que foram tiradas dele, e ele, na ânsia de que várias mulheres beijarão seus pés por causa disso, sofre, o que não acontece com as mulheres. 
         A era virtual humilha os homens, porque obriga o homem a disputar uma mulher comum com inúmeros homens, pois o que não falta são homens carentes querendo namorá-las.  A era virtual é uma grande ilusão para os homens. Quanto mais amigos virtuais uma mulher tem, mais assediada ela é, e para o homem, isso não faz diferença alguma. 
 

Postado por Irrefutável Lógico (Danilo Monteiro)
às 05:39, terça-feira, 20 de setembro de 2011
(Com adaptações e correções gramaticais)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A mensagem que você não leu



A mensagem que você não leu*
(crônica sentimental)



Ainda hoje continua o inexplicável, o indefinido. Não sei quem eu conheci, não sei quem foi você... pra falar a verdade nem sei quem você é... um mistério talvez; um enigma das arábias; um labirinto de Creta...?!
          Estou debruçado sobre o teclado do meu computador, quero desabafar, externar toda a angústia que mora dentro de mim; meu peito quer explodir de tanta angústia, quer se libertar para sempre, mas está preso por vontade ― ou fraqueza?! ―; quer alçar novos voos,  mas perdeu as asas que tinha. E tudo continua anuviado, embaçado; chego mesmo a pensar que tudo foi um sonho ― ou um pesadelo? ―, uma noite de boêmia, pela qual tem-se que pagar alto tributo no dia seguinte. Estou repleto de dúvidas, impregnado de saudade, pleno de tédio. Não há a quem reclamar as minhas dores, os meus tormentos.
            Só sei que houve você, capaz de me mostrar o caminho certo, capaz de provocar mudanças em mim ― mesmo que indiretamente, sem querer ―, ditar conselhos dentre todas as desgraças, como também supor novas fórmulas e revirar todas as incompetências e impossibilidades. Mas houve também um preço, altíssimo, incalculável, quase inatingível, que eu estou pagando sozinho. O preço foi o de querer você, toda por inteiro, só para mim; você, quase um sonho proibido para um ente desprovido de tudo como eu, que só tinha a crença de que no amor tudo é possível e tudo pode acontecer ― ledo engano ― ... No entanto, não houve outro caminho.
          Tudo parecia correr certinho, as águas descendo pela grota em direção ao rio caudaloso. Mas houve também os desatinos, as incoerências, e os erros de cálculo, e você não soube o resultado, e não saberá, até que este mistério se defina. Afinal, a derrota não é notícia que se dê e se aceite com facilidade; e nem sabemos ainda quem perdeu e quem ganhou: o tempo dirá ― talvez.  E pensar que houve os riscos e o sacrifício de imposições e aberrações de ideias, minhas naturalmente, únicas e verdadeiras, pelo menos eu pensava assim.
            Houve também a renúncia a muitos ideais, a transgressão de muitas aspirações; a mutilação dos sonhos mais cândidos, das ilusões, das esperanças e principalmente da fé e da dignidade... Eu me abandonei por inteiro.
           É sempre assim quando se ama de verdade: alguém paga o pato que não comeu. São as peças pregadas pela vida: uns subindo pra depois descer; outros descendo pra depois subir. E nesse círculo vicioso caem-se-nos os dentes, acabam-se os ideais, embotam-se os sentidos mais vitais.
          Entrei no mato sem um cão de caça, percorri todo o beco: não encontrei uma saída ― não havia. O mundo onde me encontro agora passou a ser mau, perigoso, denso e frio. A solidão de novo se aproximou de mim e já arma o bote:  estou indefeso. E esta vulnerabilidade me causa arrepio, mortifica-me.
           Mas isso não é tudo. Houve ainda a consciência da minha condição em desvantagem, sem falar, também, no mau sentido que tudo causou, na chantagem moral consciente e inconsciente. Não se pode negar, ainda, que houve o seu sadismo natural, feminino ― nunca me apoiou e ainda foi indiferente aos meus sentimentos mais profundos ―, o seu orgulho, o seu egoísmo ingente...
            Se acha que estou sendo dramático e exagerado, não repare nisso, minha cara, os amantes são assim mesmo ― imbecis.
          Enfim, as peripécias todas foram propícias para um grande tombo. E eis que de repente me encontro ― ainda ― no chão, e, comigo, toda a minha vida e toda a minha sorte. Os desígnios todos sucumbiram comigo, naufragamos num deserto de incertezas. Foi um suicídio sem morte. E eis-me no meu mundo, só, como um semivivo, órfão de todas as vontades, desejos. Refém do abandono e da rejeição.
           Quando tudo aquilo que nunca existiu acabou, aconteceu dentro de mim o assassínio de todas as gentes, a morte de todos os conflitos, de todos os conceitos. Não pôde ser evitada a morte de todos os amigos, de todos os parentes, de todas as pessoas que consegui amar.
          Lamentei a efemeridade dos momentos felizes que passei ao seu lado, mesmo como simples “amigo” (afinal, nunca fui amado, você mesma confessou isso a mim), a assiduidade da solidão e a delinquência do meu pranto.
            Muito tenho feito para fugir a todo o passado próximo, já demandei uma pasárgada fugaz; já encetei nova caminhada, trilhando ínvios caminhos e íngremes estradas que levaram a lugar nenhum. Tudo em vão. Foram árduos os caminhos que trilhei nesses últimos dias. Não foram mais fáceis as dificuldades que enfrentei para não me deixar amordaçar.  Mas o meu mundo agora está pior, bem pior; mas como “não há bem que sempre dure, nem mal que não se acabe”... Estou esperando que a minha estrela brilhe novamente no fim do túnel, como noutras vezes passadas.
            Você foi tudo para mim: o meu sol, minha manhã dourada, minha esperança de vida. Você chegou e foi logo provocando mudanças em mim; hoje sou outro, graças a você. Não sei se mudei pra melhor ou pra pior, só sei que minha vida tomou um rumo bem diferente desde que nossos mundos se distanciaram.  E essa mutação continuará pelos anos afora, tudo porque, um dia, houve você em minha vida.


Pimentel

Belém, 30/04/05

*A alguém que já foi especial para mim.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Esta vida

 
“Esta vida”


Um sábio me dizia: “Esta existência
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero, inventaria a morte!
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo: e vibra, e cresce,
e se desdobra, e estala num segundo...
Homem, eis o que somos neste mundo!”
            Falou-me assim o sábio e eu comecei a ver,
            dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: “Ó  mocidade,
és relâmpago, ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa.
Esta vida não vale grande cousa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto,
o riso às vezes, quase sempre o pranto...
Depois, o mundo, a luta que intimida,
quatro círios acesos ― eis a vida!”
            Isto me disse o monge e eu continuei a ver,
            dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: “Para o pobre,
a vida é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus...? Eu não creio nessa fantasia!
Deus me dá fome e sede cada dia,
mas nunca me deu pão nem me deu água...
Nunca! Deu-me a vergonha, a nódoa, a mágoa
de andar, de porta em porta, esfarrapado
Deu-me esta vida: um pão envenenado!”
            Disse-me isto o mendigo e eu continuei a ver,
            dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: “Vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo!
Sonha um lar, uma doce companheira,
Que queiras muito e que também te queira...
Um telhado... Um penacho de fumaça...
Cortinas muito brancas na vidraça...
Um canário que canta na gaiola...
― Que linda a vida lá por dentro rola!”
            Pela primeira vez eu comecei a ver,
            dentro da própria vida, o encanto de viver!



(ALMEIDA, Guilherme de. “Esta vida”. In, Meus
 poemas preferidos. Rio de Janeiro, Edições de Ouro.)