BOAS VINDAS

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Urubus e sabiás

Rubem Alves


Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranquilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa, e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.
— Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...
— Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.
E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá.


O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar —

O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 81.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Comprar revista




COMPRAR REVISTA




Parou, hesitante; em frente à banca de jornais. Examinou as capas das revistas, uma por uma. Tirou do bolso o recorte, consultou-o. Não, não estava incluída na relação de títulos, levantada por ordem alfabética. Mas quem sabe havia relação suplementar, feita na véspera? Na dúvida, achou conveniente estudar a cara do jornaleiro. Era a mesma de sempre. Mas a talvez ocultasse alguma coisa, sob a aparência habitual. O jornaleiro olhou para ele, sem transmitir informação especial no olhar, além do reconhecimento do freguês.
Peço? Perguntou a si mesmo. Ou é melhor sondar a barra? 
─ Como vão indo as coisas?
─ Vão indo, meio paradas.
─ Não tem vendido muita revista?
O jornaleiro fitou-o, sério:
─ Nem todo o dia é dia de vender muita.
─ Eu sei, mais tem revista e revista ?
─ Lá isso é.
─ A lista está completa ?
─ Que lista?
─ Das revistas proibidas.
─ Ah, sim, o listão. O senhor queria que não estivesse completo?
─ Eu? Perguntei, apenas. Gosto de saber das coisas com certeza. Às vezes a gente pede uma revista que não tem mais, que não pode mais ter à venda, e...
─ Por isso que perguntei. Não quero grilo, entende?
─ Entendi.
─ Nem para o senhor nem para mim, é lógico.
─ Tá legal.
─ Além do mais, gosto de cumprir a lei. O senhor também não gosta?
─ Muito.
─ Sou assim. Sempre gostei. Cumpro a lei, cumpro o decreto, cumpro o regulamento, cumpro a portaria, cumpro tudo.
─ Eu também, e daí?
─ Daí, não estou vendo a revista que eu queria, e fico sem saber se posso querer, se a lei me autoriza a querer minha revista.
─ Bem, se não está no listão, eu tenho.
─ E por que não expõe?
─ Não posso expor tudo ao mesmo tempo. Tenho que mostrar as revistas esportivas, as de palavras cruzadas, as de cozinha, os fascículos de bichos e viagens, as leis de impacto... Como é que sobra lugar?
─ Compreendo. Mas não achando a revista exposta, receei que ela não pudesse mais circular.
─ Por quê? Tem muita mulher nua, colorida, página dupla?
─ Não.
─ Marmanjo nu, como está na moda?
─ Também não. De vez em quando publica umas fotos pequeninas, de cenas de filmes ou peças de teatro, com barrigas e pernas de fora. Me interessa é as notícias, é como vai o mundo, e o que se comenta sobre ele. Quero uma revista de ao atualidades.
─ Por que não disse logo?
─ Porque tem atualidade e atualidade, então não sei? Pode me vender o Time, ou também ele já foi proibido? Veja bem, não desejo comprometê-lo. E muito menos a mim, é evidente. Mas só quero o Time se o senhor garantir que posso levar ele para casa sem infringir a lei.



(Carlos Drummond de Andrade)


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Critério




Critério



        Os náufragos de um transatlântico, dentro de um barco salva-vidas perdido em alto-mar, tinham comido as últimas bolachas e contemplavam a antropofagia como único meio de sobrevivência.
        ─ Mulheres primeiro! ─ Propôs um cavalheiro.
        A proposta foi rebatida com veemência pelas mulheres. Mas estava posta a questão: que critério usar para decidir quem seria sacrificado primeiro para que os outros não morressem de fome?
        ─ Primeiro os mais velhos ─ sugeriu um jovem.
        Os mais velhos imediatamente se reuniram num protesto. Falta de respeito!
        ─ É mesmo! ─ Disse um. ─ Somos difíceis de mastigar.
        ─ Por que não os mais jovens, sempre tão dispostos aos gestos nobres?
        ─ Somos, teoricamente, os que têm mais tempo para viver ─ disse um jovem.
        ─ E vocês precisarão da nossa força nos remos e dos nossos olhos para avistar a terra ─ disse outro.
        ─ Então os mais gordos e apetitosos.
        ─ Injustiça! ─ Gritou um gordo. ─ Temos mais calorias acumuladas e, portanto, mais probabilidade de sobreviver de forma natural do que os outros.
        ─ Os mais magros?
        ─ Nem pensem nisso! ─ Disse um magro, em nome dos demais.
        ─ Somos pouco nutritivos.
        ─ Os mais contemplativos e líricos?
        ─ E quem entreterá vocês com histórias e versos enquanto o salvamento não chega? ─ perguntou um poeta.
        ─ Os mais metafísicos?
        ─ Não esqueçam que só nós temos um canal aberto para lá ─ disse um metafísico, apontando para o alto ─ e que pode se tornar vital, se nada mais der certo.
        Era um dilema.
        É preciso dizer que esta discussão se dava num canto do barco salva-vidas, ocupado pelo pequeno grupo de passageiros de primeira classe do transatlântico, sob os olhares dos passageiros  de segunda e terceira classes, que ocupavam todo o resto  da  embarcação e não diziam nada. Até que um deles perdeu a paciência e, já que a fome era grande, inquiriu:
        ─ Cumé?
        Recebeu olhares de censura da primeira classe. Mas como estavam todos, literalmente, no mesmo barco, também recebeu uma explicação.
        ─ Estamos indecisos sobre que critério utilizar.
        ─ Pois eu tenho um critério ─ disse o passageiro de segunda.
        ─ Qual é?
        ─ Primeiro os indecisos.
        Esta proposta causou um rebuliço na primeira classe acuada. Um dos seus teóricos levantou-se e pediu:
        ─ Não vamos ideologizar a questão, pessoal!
        Em seguida levantou-se um ajudante de maquinista e pediu calma. Queria falar.
        ─ Náufragas e náufragos ─ começou ─ Neste barco só existe uma divisão real, e é a única que conta quando a situação chega a este ponto. Não é entre velhos e jovens, gordos e magros, poetas e atletas, crentes e ateus... É entre minoria e maioria.
        E, apontando para a primeira classe, gritou:
        ─ Vamos comer a minoria!
        Novo rebuliço. Protestos. Revanchismo, não! Mas a maioria avançou sobre a minoria. A primeira não era primeira em tudo? Pois seria a primeira no sacrifício.
        Não podiam comer toda a primeira classe, indiscriminadamente, no entanto. Ainda precisava haver critérios. Foi quando se lembraram de chamar o Natalino. O chefe da cozinha do transatlântico.
        E o Natalino pôs-se a examinar as provisões, apertando uma perna aqui, uma costela ali, com a empáfia de quem sabia que era o único indispensável a bordo.
      O fim desta pequena história admonitória é que, com toda agitação, o barco salva-vidas virou e todos, sem distinção de classes, foram devorados pelos tubarões. Que como se sabe, não  têm nenhum critério.




(VERÍSSIMO, L. F. O nariz e outras
crônicas. 3.ed. São Paulo: Ática, 1997)