BOAS VINDAS

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Primavera



Primavera

Cecília Meireles


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Teus olhos entristecem



Teus olhos entristecem




Teus olhos entristecem.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham, esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.


Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.


Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.


Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.


Fernando Pessoa



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sonhar para quê



[Sonhar para quê?]*



Nós dormimos em cima de nossos sonhos, Juvêncio costumava dizer a Marta, sua mulher.
Ao longo de uma vida de privações os dois haviam economizado centavo por centavo, assim chegando a mais de U$200 mil, que inicialmente estavam guardados num banco. Depois, por medo de falta de segurança levaram-nos para a pequena casa de madeira em que viviam.
E surgiu o problema: onde guardar uma quantia tão grande? A resposta óbvia era comprar um cofre, mas a isso ele se opunha. Em primeiro lugar porque custaria dinheiro; depois porque se constituiria em alvo fácil. Em caso de assalto, tudo o que os ladrões precisariam fazer seria levar o cofre. Discutiram várias hipóteses: um buraco no pátio, uma caixa no forro da casa. Locais problemáticos: ambos, idosos, esqueciam as coisas. Será que depois se lembrariam do esconderijo do dinheiro? Finalmente, Juvêncio decidiu: colocariam o dinheiro sob o colchão. Lugar clássico, mas, por isso mesmo, seguro: os ladrões simplesmente o descartariam pela obviedade. E assim os U$ 200 mil foram postos sob o velho colchão. Sobre ele dormiam, ou discutiam o que fazer.
Uma viagem à Itália, país natal de ambos, era a opção mais tentadora, mas trabalhosa. Além do mais, um dos dois sempre estava adoentado. E aí foram furtados. Uma noite, regressando da visita a um amigo, encontraram a casa arrombada. O ladrão tinha levado um liquidificador novo, mas isso era de menos: pálidos de medo, correram para o dormitório, e aí o choque e a amarga desilusão: o colchão havia sido afastado e os dólares haviam sumido. Ficaram arrasados. Suas almejadas viagens ficaram mais distantes.
Só conseguiram se recuperar com a ajuda do padre que convenceu-os argumentando que dinheiro é coisa secundária. Não estavam feridos e poderiam continuar sonhando. Não com viagens, mas em voltar a dançar tango, por exemplo. Ambos haviam sido excelentes bailarinos. Confortados, eles dedicaram-se, a partir de então, a recuperar sonhos. Já se viam em sonhos, dançando tango no teatro da cidade.
Chegaram a ir ao teatro para conhecer. Quando retornaram, de noite, constataram que a casa fora assaltada de novo. Desta vez, os ladrões haviam levado o colchão.


Moacyr Scliar
*Título meu


sábado, 1 de dezembro de 2012

Soneto do amigo



     Soneto do amigo



Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


(Vinícius de Moraes)