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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A importância do ato de ler

A importância do ato de ler




      A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado – e até gostosamente – a “reler” momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão crítica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo.
      Ao ir escrevendo este texto, ia “tomando distância” dos diferentes momentos em que o ato de ler se veio dando na minha experiência existencial. Primeiro, a “leitura” do mundo, do pequeno mundo em que me movia; depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo de minha escolarização, foi a leitura da “palavramundo”.
      A retomada da infância distante, buscando a compreensão do meu ato de “ler” o mundo particular em que me movia – e até onde não sou traído pela memória –, me é absolutamente significativa. Neste esforço a que me vou entregando, re-crio, e re-vivo, e, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores. A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço – o sítio das avencas de minha mãe –, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras. Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto – em cuja percepção me experimentava e, quanto mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber – se encarnavam numa série de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreensão eu ia apreendendo no meu trato com eles nas minhas relações com meus irmãos mais velhos e com meus pais.


FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler.
São Paulo: Cortez, 1989. p. 1. Adaptado.


sábado, 21 de julho de 2012

Fila nos bancos


Fila nos bancos

Crônica

O cliente engravatado sorriu e entregou à simpática caixa do banco um cartão, escrito à máquina: "Vá enchendo a maleta. Comporte-se com naturalidade. Estou segurando uma arma. Obrigado".
Não frequento agências bancárias, serviço assumido por minha mulher. Perder nas filas tempo que emprego escrevendo resultaria em prejuízo financeiro. No geral a consorte volta exausta e indignada com alguma coisa. A espera, que às vezes começa a quilômetros do guichê, sempre a expõe a alguma convivência desagradável. A impaciência, o lento passo a passo suscitam intimidades. A maioria força o diálogo oferecendo balas, caramelos e biscoitos. "Experimente, são deliciosos." Por educação ela aceitou uma dessas delícias: sofreu na fila mesmo uma cólica violenta, não suporta nada que tenha coco. Uma vovó levava no colo uma criança que amou minha mulher à primeira vista e quis mudar de peito. "Segure ela um pouquinho, gostou da senhora." Embora não houvesse reciprocidade, minha cara-metade foi gentil. Aconteceu exatamente o que vocês estão adivinhando. Ou sentindo o odor.
Mas eu contava a história do ladrão de banco.
A caixa nem olhou para os lados para que o assaltante não pensasse que pedia socorro. Diante dela, o falso cliente mantinha o mesmo sorriso imóvel. A maleta preta já estava aberta sobre o guichê. Hesitou. Então ele parou de sorrir e mexeu o braço armado. Ela depositou o primeiro maço de notas de dez na maleta.
Em época de eleições não é seguro revelar o nome de seu candidato nas filas, diz-me minha mulher. Já vi gente se sair mal por isso. Brigar é uma forma de preencher o tempo. Ela se queixa em especial dos portadores de mau hálito, justamente os chegados às confidências cara a cara. Companheiro de fila para alguns é como padre em confessionário. Mas há coisas piores. Uma tarde minha mulher voltou da agência possessa. Um cavalheiro atrás dela, fumando um charuto, perguntou-lhe: "Não está sentindo um cheiro de queimado"? Distraidamente ele fizera um furo em seu vestido. Sabem quanto me custou a distração?
Além das confissões constrangedoras, também há aquelas correntistas que pedem conselhos - não sobre aplicações. Depois da narração de uma história trágica, perguntam ansiosamente como se a uma velha amiga: "Em meu lugar o que a senhora faria? Devo fazer isto ou aquilo? Devo permitir que minha filha saia com ele?". Outro dia minha mulher chegou em casa trêmula. Uma mãe desesperada, da qual nem lembrava, acercara-se dela, ameaçadoramente, no banco: "Fiz o que aconselhou e sabe qual foi o resultado? Minha filhinha há três meses desapareceu com o cafajeste..."
Mas eu contava a história do ladrão de banco.
A caixa foi colocando os maços de dinheiro dentro da maleta preta. Lentamente, o que irritava o assaltante. Atrás dele a fila crescia. E a fila ao lado também. O assalto praticado por um homem só porém prosseguia, a cada segundo mais tenso em meio ao movimento da agência, protegida por guardas fardados.
O mais chato são certos encontros garantiu minha mulher. ­ Gente que não vemos há décadas e das quais nem lembramos mais.
Como a saudade atua nos músculos! Ela mostrou-me o vestido amassado. Uma vizinha de infância, pesando uns 80 quilos, quase a matara comprimindo-a entre os braços. Isso enquanto lambuzava-lhe o rosto com beijos prolongados. Até seus cabelos ficaram em estado lamentável. Despregou-se um botão. Nada mais inconveniente que topar com antigos conhecidos em hora errada!
Mas eu contava a história do ladrão de banco.
Subitamente um cavalheiro aproximou-se do assaltante com um palmo de sorriso. Colocou-se entre ele e a moça.
Batista, você! Há quanto tempo! Ainda esta semana conversei com seu tio no supermercado! Me dê um abraço, amigão! Mas, o que é isso? Vai sair por aí com esse baú cheio de dinheiro? Não tem medo de ladrões, não?
Batista olhou para o chão mas não viu buraco algum para esconder-se.
A caixa, sorrindo, ao amigo dele:
Seu Batista não vai sair com esse dinheiro, não; ele veio depositar...


REY, Marcos

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Como perder o receio de escrever


Como perder o receio de escrever


Ela é temida por muitos estudantes, mas na hora do vestibular não dá pra fugir dela. Escritores e professores dão dicas para ajudar a produzir a redação exigida nos vestibulares.
Confira as dicas:
Em geral, o aluno tem medo da redação, mas não apresenta o mesmo medo quando não sabe algum conteúdo de química ou matemática. A redação é muito reveladora, expõe se o candidato tem conhecimentos gerais, sabe escrever e organizar ideias. Talvez a redação seja a prova que melhor reflita o aluno. Por isso, existe um trauma, um bloqueio no momento de escrever. Para superar a dificuldade, é necessário saber que existe uma técnica. O aluno deve dominá-la, precisa ler, comparar bons e maus textos, ver onde estão os erros e acertos. Praticar é fundamental.
Luísa Canella, coordenadora de redação do Grupo Unificado
Para um bom texto, é importante desenvolver duas habilidades: dominar a língua e ter conhecimentos gerais sólidos. E estas habilidades só são adquiridas com a prática da leitura e da escrita. Por isso, é preciso escrever e ler. Na linguagem, é importante tirar a ideia de que escrever bem é escrever difícil. Uma boa redação precisa ter linguagem clara, objetiva e fluente. Com um bom vocabulário, o aluno evita repetições e consegue estruturar bem o seu texto. Argumentos sólidos fazem a diferença. Uma boa dica para exercitar é a contra-argumentação. O aluno pega seu ponto de vista e elabora aspectos contrários. Se, ao confrontar as ideias, ele perceber que sua posição é mais consistente, está com bons argumentos.
Jésura Lopes Chaves, professora de redação do Colégio Militar de Porto Alegre
As pessoas não estão acostumadas a ler e a se concentrar no mesmo assunto. Os estímulos para prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo são enormes. E a falta de leitura deixa as pessoas destreinadas para colocar o foco em uma atividade. Assim, na hora que precisam escrever, entram em pânico. Para fazer um bom texto, antes de qualquer coisa, o aluno deve buscar a concentração. Na hora da redação, vale a penar ler com calma o tema proposto e anotar em um papel o máximo de ideias possíveis, mesmo que fora de ordem. Nesta associação, uma palavra puxa a outra. Depois é organizar o texto com aquela estrutura básica de início, meio e fim.
Cíntia Moscovich, escritora e jornalista
Talvez os alunos não percebam que escrever é como falar. Claro que até para falar é preciso pensar um pouquinho… Para aliviar a tensão antes de fazer um texto, para relaxar, em geral leio alguma coisa que eu mesmo escrevi. E que gosto, claro. Uma boa dica para ter noção se o texto está bom é dá-lo para a mãe ler. Ela com certeza vai achar algum defeito.

Tabajara Ruas, escritor
Fonte: Zero Hora
Publicado originalmente em: Como perder o receio de escrever | Vestibular no Pará
 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Quando nosso cérebro sai da linha de montagem


Quando nosso cérebro sai da linha de montagem



O que entendemos por “tempo livre”? Livre de quê? Livre do trabalho. De fato, por um longo tempo, esses dois momentos na vida foram mantidos completamente separados: a produção na fábrica e o consumo em casa.
Essa separação total reinava na velha sociedade industrial, quando 90% dos trabalhadores desenvolviam atividades físicas e repetitivas, como na linha de montagem. Hoje, porém, a ocupação virou algo tremendamente confuso. Isso porque pelo menos 60% dos trabalhadores – de porteiros a publicitários, de atores a cirurgiões – exercem profissões intelectuais, trabalham com a cabeça. Nessa cabeça dificilmente se consegue separar os pensamentos que giram em torno do trabalho dos que se ocupam da família, dos amigos e do divertimento.
Ao voltar para casa no final da jornada, o torneiro deixava sua ferramenta de trabalho – o torno – na fábrica e, portanto, não podia mais trabalhar até a manhã de segunda. Já hoje, a ferramenta principal com a qual operamos, seja no trabalho, seja no tempo livre, é nosso cérebro, que nos acompanha sempre. Por isso mesmo, não sabemos mais ao certo se estamos trabalhando, estudando ou nos divertindo. Por exemplo, quando um jornalista ou professor vão ao cinema, eles fazem isso por simples divertimento ou para enriquecer a própria cultura e exercer melhor sua profissão?
Essa confusão inevitável torna inúteis todos os velhos rituais administrativos e organizacionais inventados para separar, rigidamente, com guardas e cancelas, o dentro do fora, o trabalhar do divertir-se, o operar do aprender. No escritório, em casa, no bar, em nossa vida, dia após dia, encontramos esse amálgama de ação e reflexão.
As empresas que persistem em sua organização fordista – aquela com a linha de montagem idealizada por Henry Ford, em que cada operário faz apenas uma função – representam as células mais conservadoras de toda a sociedade. Pretendem estender hoje aos empregados e às gestões pós-industriais aqueles mesmos preceitos que as indústrias impuseram aos operários no passado. Não satisfeitos em espremer o trabalho entre regras obsoletas, ainda querem aplicá-las ao tempo livre, em que a família, a televisão e a agência de viagens nos agrupam em espécies de pelotões militares. Por isso, dentro em pouco, o cidadão será submetido a uma extensa relação de tarefas minuciosamente programadas, da palestra ao curso de inglês. Privado ao mesmo tempo do sorriso e do brinquedo, o menino já estará pronto para servir ao professor, ao pároco, ao chefe, acossado pela corrida de obstáculos da carreira, aterrorizado pelo medo de ficar para trás e de ser despedido. Não se trata de um medo infundado, porque a sociedade pós-industrial precisa de apenas poucos profissionais criativos e superespecializados. E não sabe o que fazer com a massa de empregados que se tornou inútil diante do progresso tecnológico e da globalização galopante.
Em frente ao rolo compressor das multinacionais, o que pode fazer um único trabalhador intelectual? A psicóloga francesa Corinne Mayer aconselha todos os empregados que desenvolvem trabalhos intelectuais a resistir passivamente, escavando um nicho no sistema organizacional que os oprime. Pede a eles que se refugiem num esconderijo em que possam passar despercebidos, cultivando a própria preguiça, trabalhando o menos possível, evitando conflitos. Eles devem adequar-se docilmente aos ditames organizacionais, isentando-se de responsabilidades, passando a batata quente aos novatos e aos subordinados, sobrevivendo, vegetando e esperando passivamente a morte.
Tenho ódio da preguiça, o suicídio da alma, pois os seres humanos são feitos para criar, não para vegetar. De minha parte, desaconselho a ação individual, destinada a sucumbir de qualquer maneira. O resgate dos trabalhadores intelectuais somente poderá ter sucesso com ações conscientes, organizadas junto com empresas de visão mais ampla. Não para estender as regras do trabalho também ao tempo livre. Mas, muito pelo contrário, para transformar o trabalho em ócio criativo.


(MASI, Domenico de. Quando nosso cérebro sai da
linha de montagem. Época, n.º 436, p. 106, set. 2006.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Corrupção: crime contra a sociedade


Corrupção: crime contra a sociedade



        Segundo a Transparência Internacional, o Brasil comparece como um dos países mais corruptos do mundo. Sobre 91 analisados, ocupa o 69º lugar. Aqui ela é histórica, foi naturalizada, vale dizer, considerada como um dado natural, é atacada só posteriormente quando já ocorreu e tiver atingido  muitos milhões de reais e goza de ampla impunidade. Os dados são estarrecedores: segundo a Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) anualmente ela representa 84.5 bilhões de reais. Se esse montante fosse aplicado na saúde subiriam em 89% o número de leitos nos hospitais; se na educação, poder-se-iam abrir 16 milhões de novas vagas nas escolas; se na construção civil,  poder-se-iam construir 1,5 milhões de casas.
        Só estes dados denunciam a gravidade do crime contra a sociedade que a corrupção representa. Se vivessem na China muitos corruptos acabariam na forca por crime contra a economia popular. Todos os dias, mais e mais fatos são denunciados como agora com o contraventor Carlinhos Cachoeira que para garantir seus negócios infiltrou-se corrompendo gente do mundo político, policial e até governamental. Mas não adianta rir nem chorar. Importa compreender este perverso processo criminoso.
        Comecemos com a palavra corrupção. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original,  expressão que não consta na Bíblia mas foi criada por Santo Agostinho no ano 416 numa troca de cartas com São Jerônimo, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor)  rompido (ruptus) e pervertido. Cita o Gênesis: “a tendência do coração é desviante desde a mais tenra  idade”(8,21). O filósofo Kant fazia a mesma constatação ao dizer: “somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há uma força em nós que nos incita ao desvio que é a corrupção. Ela não é fatal. Pode ser controlada e superada, senão segue sua tendência.
        Como se explica a corrupção no Brasil? Identifico três razões básicas entre outras: a histórica, a política e a cultural.
        A histórica: somos herdeiros de uma perversa herança colonial e escravocrata que marcou nossos hábitos. A colonização e a escravatura são instituições objetivamente violentas e injustas. Então as pessoas para sobreviverem e guardarem a mínima liberdade eram levadas a corromper. Quer dizer: subornar, conseguir favores mediante trocas, peculato (favorecimento ilícito com dinheiro público) ou nepotismo. Essa prática deu  origem ao jeitinho brasileiro, uma forma de navegação dentro de uma sociedade desigual e injusta e à lei de Gerson que é tirar vantagem pessoal de tudo.
        A política: a base da corrupção política reside no patrimonialismo, na indigente democracia e no capitalismo sem regras. No patrimonialismo não se distingue a esfera pública da privada. As elites trataram a coisa pública como se fosse  sua e organizaram o Estado com estruturas e leis que servissem a seus interesses sem pensar no bem comum. Há um neopatrimonialismo na atual política que dá vantagens (concessões, médios de comunicação) a apaniguados políticos.
        Devemos dizer que o capitalismo aqui e no mundo é em sua lógica, corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos  de classe. Por isso, o capitalismo é por natureza antidemocrático, pois  a democracia supõe uma igualdade básica dos cidadãos e direitos garantidos, aqui violados pela cultura capitalista. Se tomarmos tais valores como critérios, devemos dizer que nossa democracia é anêmica, beirando a farsa. Querendo ser representativa, na verdade, representa os interesses das elites dominantes e não os gerais da nação. Isso significa que não temos um Estado de direito consolidado e muito menos um Estado de bem-estar social. Esta situação configura uma corrupção  já estruturada e faz com que ações corruptas campeiem livre e impunemente.
        Cultura: A cultura dita regras socialmente reconhecidas. Roberto Pompeu de Toledo escreveu em 1994 na Revista Veja: “Hoje sabemos que a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições”. Os corruptos são vistos como espertos e não como criminosos que de fato são. Via de regra podemos dizer:  quanto mais desigual e injusto é um Estado e ainda por cima centralizado e burocratizado como o nosso, mais se cria um caldo cultural que permite e tolera a corrupção.
        Especialmente nos portadores de poder se manifesta a tendência à corrupção. Bem dizia o católico  Lord Acton (1843-1902): ”o poder tem a tendência a se corromper e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava: “meu dogma é a geral maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”.
        Por que isso? Hobbes  no seu Leviatã (1651) nos acena para uma resposta plausível: “assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”. Lamentavelmente foi o que ocorreu com o PT. Levantou a bandeira da ética e das transformações sociais. Mas ao invés de se apoiar no poder da sociedade civil e dos movimentos e criar uma nova hegemonia, preferiu o caminho curto das alianças e dos acordos com o corrupto poder dominante. Garantiu a governabilidade  a preço de mercantilizar as relações políticas e abandonar a bandeira da ética. Um sonho de gerações foi frustrado. Oxalá  possa ainda ser resgatado.
        Como combater a corrupção? Pela transparência total, pelo aumento dos auditores confiáveis que atacam antecipadamente a corrupção. Como nos informa o World Economic Forum, a Dinamarca e a Holanda possuem 100 auditores por 100.000 habitantes; o Brasil apenas, 12.800 quando precisaríamos pelo menos de 160.000. E lutar para uma democracia menos desigual e injusta que a persistir assim será sempre corrupta e corruptora.


Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor
Jornal do BrasilLeonardo Boff
15/04 às 08h00 - Atualizada em 15/04 às 19h04